Os painéis em azulejo têm algo de especial. Talvez seja a forma como atravessam o tempo, ou a maneira como a cor se fixa na matéria quase como uma memória permanente.
No meu processo, tudo começa de forma muito manual — quase silenciosa.
A pintura é feita diretamente sobre o azulejo, usando esmaltes cerâmicos. É um momento de construção delicada, onde cada traço precisa considerar não só a imagem final, mas também a transformação que ainda vai acontecer no forno.


A matéria da tinta
Os pigmentos são combinados com óleos aglutinantes, criando uma textura própria, quase tátil. Essa mistura dá corpo à pintura e permite que a cor se comporte de maneira única durante a aplicação.




Alteração das cores do esmalte antes e depois da queima.
Tudo acontece sobre azulejos brancos já esmaltados. Essa base neutra reflete a luz e intensifica as cores, criando um contraste que ganha ainda mais força depois da queima.

Trabalhando no ateliê do Sítio São José em Campinas - SP.
O encontro com o fogo
Depois da pintura, vem o momento decisivo: a queima em forno, a cerca de 780 °C. É ali que tudo se transforma. As cores se fundem ao esmalte, ganham profundidade, brilho e permanência.
O que antes era gesto, agora vira matéria.

As peças são queimadas no forno para cerâmica a 780ºC.
No fim, cada painel carrega esse percurso invisível — da mão ao fogo.
E talvez seja isso que torne o azulejo tão potente: ele guarda o tempo dentro dele.

Trabalho exposto no MACC - Museu de Arte Contemporânea de Campinas em Março de 2026.

Iemanjá
Dimensões: 80 x 120 cm
24 azulejos de 20 x 20 cm
